Willian Blake (1757-1827)
"A abelha ocupada não tem tempo para a tristeza"
As pessoas têm antipatia pela rotina porque consideram que estão fazendo coisas chatas e sem propósito de forma repetitiva. Isso não é rotina, é uma sentença. Não tenho como livrar você disso, somente você mesmo - e pode ser que as próximas linhas ajudem nessa mudança.
Resumo
- As decisões são difíceis de serem tomadas e requerem energia;
- A sociedade criou moldes e ideais que sobrecarregam mentalmente as pessoas;
- O estabelecimento de uma rotina saudável favorece a concretização de objetivos e otimiza o uso de recursos intelectuais.
Ser ou não ser, eis a questão
Todos os dias somos obrigados a tomar uma série de decisões: vestimenta, alimentação, agenda etc. Na psicologia, há uma série de estudos que buscam entender o quanto essas decisões afetam recursos mentais. Basta procurar por termos como "decision fatigue", " ego-depletion" ou "self-control fatigue" para perceber o quanto buscam entender isso. Mas como ainda há controvérsias quanto a metodologia desses estudos, o que nos limita de ter um "tapa científico" sobre o tema.
Apesar das controvérsias, esses estudos apontam alterações sobre comportamentos específicos com base na demanda de decisão das pessoas que participaram dos experimentos. Gostaria de fazer um destaque de um desses experimentos, sobre as fases da tomada de decisão:
| Fase | 1. Deliberação | 2. Decisão | 3. Implementação |
|---|---|---|---|
| O que é | Consideração de prós e contras entre opções. | Selecionar uma entre algumas opções válidas. | Executar ações decorrentes da tomada de decisão. |
| Liberdade de escolha | Alta: a pessoa pode fazer ponderações e até revisar necessidades. | Média: uma decisão precisa ser tomada entre um conjunto limitado de opções | Baixa: a decisão já foi tomada, só precisa ser implementada. |
| Consumo de recursos psicológicos | Alto: pode requerer pesquisa, conciliações, testes e planejamentos | Médio: as opções são limitadas, basta aderir a mais conveniente para a situação. | Baixo: a decisão já foi tomada :-) |
| Exemplo | Solicitar uma bebida personalizada no Starbucks entre as 19 mil combinações possíveis de ingredientes. | Escolher uma bebida do cardápio acima do balcão no Starbucks. | Nos dias quentes, sempre tomar o Refresher de limão com pump extra e sem água no Starbucks. |
A liberdade de poder deliberar sobre a tomada de decisão traz um custo "energético". Por outro lado, decisões pré-estabelecidas que requerem apenas implementação tem um baixo custo energético. Afinal, já está decidido. Às vezes nós tomamos a decisão (como o exemplo do Starbucks na tabela), outras vezes tomam por nós. Gosto de citar o caso do iPhone, que só tinha um modelo, poucos toques, poucos fundos de tela e você só precisava verificar se tinha condições financeiras para "implementar" a decisão de ter um. Tudo já estava decidido para o consumidor. Nota: embora eu reconheça a maravilha tecnológica que é um iPhone, sou usuário de Android desde a versão 2.1 (gosto da liberdade).
A sociedade do cansaço
Todos os dias precisamos tomar centenas de decisões. E, além dessa pressão, nossos recursos psicológicos são divididos na resolução de alguns dilemas do cotidiano:
Demanda elevada
Nos dias de hoje há muito a ser feito: cuidar do trabalho, da casa, das crianças, do relacionamento, assistir a todas as séries no streaming, aprender um instrumento, ser social, ler todos os livros comprados nas últimas férias (que foram quando, hein?!)...
Um dado de 2020 mostra que o Netflix tinha 36 mil horas de tempo total de conteúdo, o que faria uma pessoa ficar uns 17 anos 8 horas por dia útil na frente da TV.
Essa demanda sobrecarregada, obviamente, vai estourar em algum momento e deixar a pessoa frustrada.
Planejamento excessivo
Planejar é importante, mas não materializa as coisas. No fim do dia, executar é o que vai dar aquela descarga de dopamina com o efeito de "dever cumprido".
O planejamento excessivo anda de mãos dadas com a demanda elevada. A pessoa investe horas organizando algo que ela já sabe que pode ser humanamente impossível de cumprir.
Como diz um artigo de 2015 da HBR: "[Overplanning] is making you more stressed, not more organized". Isso significa que você precisa estar preparado para ser flexível e dançar conforme a música. Não dá para prever tudo o que vai acontecer, lide com isso.
Multitasking (fajuto)
O cérebro humano é incrível. Com suas 100 bilhões de células (que são microcomputadores) e um consumo de 10W (menos que uma lâmpada) tem uma capacidade de processamento muito superior à qualquer coisa que a humanidade tenha construído até hoje.
Você pode até conseguir trabalhar com uma agenda paralela, mas isso não é multiprocessar (apesar de um estudo de 2010 apontar a possibilidade para atividades passivas) . Provavelmente, você vai se distrair e fazer duas ou mais coisas de forma ruim ao longo do tempo.
A falácia do multitasking é assunto de diferentes canais de comunicação. Vale a pena investir um tempo para ver este episódio de Brain Games, da Nat Geo.
O nosso cérebro se dedica para as atividades como se fosse um rádio: pode sintonizar em uma estação ou outra. No momento em que as estações interferem uma na outra surgem transtornos mentais, que já compõem riscos globais mapeados na agenda do Fórum Econômico Mundial. Esse fenômeno aparece na literatura como parte integrande da sociedade do cansaço, originalmente definida em um ensaio de Byung-Chul Han.
Simplificando a vida
De um modo geral, as coisas começam pequenas. O crescimento pode ser infinito. Exemplos:
- O Universo que conhecemos hoje saiu de um pontinho;
- Todo ser vivo que existiu ou existe na Terra se desenvolveu a partir de uma célula;
- Toda grande jornada começa com o primeiro passo;
- Todo castelo foi erguido a partir de uma pedra;
- e por aí vai...
O propósito e a consistência das ações permitem que coisas gigantescas aconteçam ao longo do tempo. E isso se faz com rotina.
Cada um precisa desenvolver sua própria rotina tendo em vista objetivos de médio e longo prazo. Mais exemplos:
- 20 minutos de exercícios todos os dias queimam 55000 calorias por ano, o equivalente a 500 paçocas;
- 10 páginas lidas por dia resultam em 3650 páginas em um ano, cerca de 10 livros;
- 30 minutos de videogame com os filhos representam cerca de 22 dias de férias gastos com jogo
As possibilidades são infinitas. Essa é a liberdade da rotina. Realizar de forma recorrente pequenas coisas que agregam à sua vida e que representam uma boa parte do seu tempo. Vejo o ápice disso quando a rotina do seu trabalho também estimula as pessoas de forma positiva. As lideranças das empresas deveriam se esforçar mais nesse sentido - fazer com que as pessoas enxerguem propósito no que estão fazendo e se identificarem com isso. Desse modo, em vez de carregar pedras, a pessoa se sente construindo um castelo.
Este texto foi fruto de um trabalho constante ao longo de quatro dias. Durante o processo, aproveitei para conversar com algumas pessoas sobre o assunto e cheguei a três pontos fundamentais para estabelecer uma rotina produtiva:
Tenha decisões pré-estabelecidas
Quanto mais escolhas prévias você tiver, menos tempo e energia vai gastar fazendo-as. É o caso da bebida previamente selecionada no Starbucks.
Outra forma de acelerar a tomada de decisões é reduzindo a quantidade de opções, como ter apenas um par de sapatos. A decisão está feita e você não vai perder tempo escolhendo.
Estabeleça uma agenda inquestionável
Se você realmente quiser fazer algo, dê um jeito de colocar na sua agenda semanal ou mensal. Não espere as férias para fazer, porque isso reduz a chance de colocar na rotina.
Faça com que esses itens de agenda sejam inquestionáveis. Crie um compromisso com você mesmo e faça, cansado, na chuva ou doente. Só faça.
Execute as coisas com atenção plena
Enquanto estiver executando qualquer coisa, não pense nos boletos para pagar ou no fulaninho da padaria. Muito menos fique com o Youtube aberto durante a conferência via Teams.
Faça uma coisa de cada vez. De verdade. Dedique-se naquele espaço de tempo para aquela finalidade e as coisas vão funcionar melhor.
A junção desses três pontos vai trazer a percepção de que as coisas estão sendo feitas. E isso gera um mecanismo de resposta fisiológica que vai impulsionar você a continuar fazendo. E, obviamente, ajustes podem ser realizados para uma melhor experiência.
Desafio para você
Caso não enxergue em você a disciplina para estabelecer novas rotinas, proponho um desafio: por 10 dias, faça algo que seja bom para você, seja relativamente fácil e rápido de fazer, tenha poucas dependências e que possa gerar algum tipo de compromisso com outros.
Pode ser escrever um poema por dia ou fazer uma série de agachamentos e flexões. Algo que possa ser documentado e compartilhado com alguém. Mantenha atenção plena e observe como nesses 10 dias você consegue criar uma rotina para fazer o que quiser.
Para saber mais:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18444745/
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6119549/#R54
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/10/ciencia/1557485951_099737.html